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Reflexões Jornalísticas

TV e Telejornalismo: Transformações Recentes
Everton Constant
Professor de Telejornalismo da Faculdade Cásper Líbero
e editor-chefe do SP Notícia, da TV Record.

Na década de 90 a televisão brasileira passou por um novo processo de transformação. As TVs por assinatura foram, ao longo desses anos, conquistando mais e mais clientes, principalmente nas classes A e B. Em paralelo a isso, a estabilidade da moeda brasileira, depois do plano Real, possibilitou, cada vez mais, que camadas menos favorecidas da sociedade tivessem acesso ao aparelho de televisão. Assim, quase na mesma proporção em que adquiriam esse importante eletrodoméstico, o novo grupo de telespectadores, pertencente, basicamente, às classes C, D e E, pôde ter nas mãos o poderoso controle remoto. Pronto. Aí está a fórmula explosiva que mudou, e está mudando, o perfil da televisão que se faz no Brasil.

Na briga por essa audiência, menos qualificada, do ponto de vista da instrução e da informação, porém numericamente expressiva, começaram a proliferar programas considerados, pelos formadores de opinião, como apelativos e de cunho popularesco. Sexo, violência e a cobertura do chamado "mundo cão" se tornaram sinônimos de bons índices no Ibope. O homem que melhor soube se apropriar desses elementos acabou se tornando um dos grandes sucessos de audiência e também um dos maiores salários da TV brasileira, o senhor Carlos Massa, o Ratinho. A ponto de obrigar a poderosa Rede Globo a rever a sua estratégia de programação para enfrentar a fúria do roedor que está conseguindo abalar uma sólida e bem-sucedida grade de programação (nome que se dá à disposição dos programas ao longo do dia, numa emissora de televisão). A liderança da Vênus Platinada também passou a ser ameaçada em outras frentes, criando a falsa impressão de que as outras TVs estavam, finalmente, atingindo uma excelência de programação a ponto de alfinetar ou até mesmo ameaçar a estável liderança global. Na realidade esse processo, que deve ser compreendido pelas razões da transformação, é o inverso. O que está acontecendo é que o chamado "universo da audiência" mudou de perfil. Ficou menos "qualificado", em razão da migração de boa parte do público das classes A e B para o cabo. Por isso, grande parte dos telespectadores que hoje assistem às chamadas TVs abertas (as que são concessões públicas e que podem ser sintonizadas de graça em qualquer aparelho de TV) é formada pela fatia da sociedade que responde, em forma de audiência, a programas apontados como apelativos e muitas vezes de mau gosto. 

O resultado disso está cada vez mais evidente na televisão brasileira. Pior. A última esperança, na TV aberta, para evitar que esse processo se consolidasse, a TV Cultura de São Paulo já começa a dar sinais de que vai, finalmente, sucumbir à sedução e ao assédio mercadológico. Empurrada, principalmente, pela visão míope de uma política promovida pelo governo paulista. Ativo agente de uma onda de privatizações, o governo estadual vem retirando investimentos e estimulando a emissora, através do corte de verbas, a gerar recursos próprios indicando a busca de dinheiro na iniciativa privada e não no governo. Entenda-se: no mercado e não no Estado. Virando as costas para o importante papel que o Estado tem em formar e informar o cidadão e não de deixar que ele fique, justamente, à mercê de anunciantes preocupados em formar consumidores e não cidadãos. Na busca desses recursos, a TV Cultura vai precisar de audiência. Para conseguir isso, ela vai ter que entrar na briga com as emissoras comerciais que, hoje, estão, justamente, alavancando os seus índices no Ibope com programas de baixo nível e que pouco, ou nada, têm a oferecer para o desenvolvimento da sociedade.

Um dos últimos redutos de boa qualidade na programação da TV, os programas jornalísticos também já começam a demonstrar que estão assimilando a mudança no perfil dos telespectadores. Percebe-se que as pautas vão ficando mais apoiadas no resultado do Ibope do que na cobertura editorial dos fatos. A demora na contaminação, em larga escala, dos chamados "jornalísticos", pelos temas considerados "popularescos" está, talvez, ligada a um trauma. Quando, ainda no início da década, as emissoras comerciais começaram a investir nesse filão, para atacar a Globo, o SBT botou no ar o Aqui Agora, que logo se tornou um fenômeno de audiência. Com pouco menos de um ano ele já surgia, em pesquisas, como o preferido dos telespectadores, ao lado do veterano, e sempre considerado imbatível, Jornal Nacional. Isso no momento em que o "universo de audiência" já dava sinais de transformação e começava a se impor nos índices do Ibope. Só que tanto sucesso teve um preço alto. O noticiário era repleto de sexo, sangue e baixarias de todos os tipos. O impacto positivo na audiência teve efeito contrário no mercado jornalístico. O Aqui Agora era rejeitado pelos profissionais de televisão. Os que aceitavam trabalhar nele cobravam salários muito acima do praticado no mercado. O que na época chegou a inflacionar os valores pagos, até então, para os jornalistas que desempenhavam as suas funções em TV. Além disso, embora o jornal conseguisse bons índices de audiência, tinha dificuldade em conseguir patrocínio e anúncios comerciais. 

O trauma do efeito Aqui Agora pode ter retardado a contaminação pela busca da audiência "mais popular" nos telejornais. Mas o Aqui Agora saiu do ar e o seu sucessor, o Cidade Alerta, da Record, já não experimenta, hoje, as mesmas rejeições que o antecessor. 
Os chamados telejornais tradicionais, como qualquer programa de televisão, sempre tiveram preocupação com a audiência. O próprio JN, sempre alinhado com as decisões de Brasília, já deixou de exibir entrevistas com o presidente da República, por exemplo, porque a audiência sempre cai. O respeitado Paulo Henrique Amorim acabou deixando a Bandeirantes depois de não conseguir cumprir a promessa de melhorar os índices da emissora. 

Apesar da preocupação com a maquininha do Ibope, os telejornais considerados tradicionais (no formato e no conteúdo) sempre deram pouco ou nenhum espaço para a cobertura de temas considerados apelativos. Mas o que se observa hoje é que isso também já está mudando. Ainda que lentamente. Num olhar mais apurado, podemos perceber essas mudanças não só na pauta como na condução das matérias. Atualmente, numa reportagem de TV, é imprescindível a existência de um personagem. Na teoria, ele está ali para personificar o problema e torná-lo real e mais próximo dos telespectadores. Só que a história da pessoa que é o centro da reportagem está cada vez mais dramática. Mais emotiva. Cativante. Como acontece, exatamente, com os personagens das novelas, as eternas campeãs de audiência.
A seguirmos por esse caminho, onde irá parar o telejornalismo de qualidade da televisão brasileira? Na TV a cabo, respondem aqueles que acreditam que esse processo, além de irreversível, avança dia após dia a passos largos, ou melhor, a picos de audiência.

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